Meu nome é Márcio Roberto de Barros Monteiro; me chamam de cito e eu não sei porque. Algumas coisas sobre mim nunca poderei explicar. Nunca entenderei a razão de ter nascido assim exatamente como sou. Nunca explicarei porque nasci paulistano, branco, sagitariano e canhoto. Meu cérebro funciona diferentemente de noventa por cento da população, nos dois hemisférios. Surgem idéias, conceitos, iras e serenidades nos diversos lobos que me recheiam o crânio. Meu canhotismo pode determinar meu gosto musical, minha paixão exacerbada por cinema e minha dificuldade em amar. Talvez seja a influencia má dos signos do Zodíacos. O fato é que milênios de recombinações genéticas formaram minha complexidade física e intelectual até eu surgir, não exatamente como queria, mas como sou. E isto é fantástico.
domingo, 25 de janeiro de 2009
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
2000inove?

Diferentemente dos Estados Unidos que comemoram o Ano Novo, o Dia de Ação de Graças e o 4 de julho, no Brasil só temos uma queima de fogos e ainda assim como as chuvas de inverno: apenas em pontos isolados. Dizem que o maior Reveillon do mundo é o de Copacabana e somente na Rocinha há mais pipocos e rojões.
O ano de 2009 é o penúltimo da década - o que me provoca tremuliços - e promete ser o penúltimo de muita gente. Estima-se que a fome e o Fome Zero, a Suzana Vieira e Santa Catarina não existam até o fim da década se as coisas continuarem nesse pé. Prevê-se também que a Dutra desapareça, já que São Paulo e Rio crescerão tanto, impulsionados pelos shows da Madonna que eles se dêem às mãos finalmente, como na pintura de Michelangelo. A desvantagem é que um tiro disparado em Ipanema pode implicar numa bala perdida, tanto na Lapa de lá ou quanto na Lapa de cá.
É bem possível que o Ronaldinho marque gols, dissolvendo a crise econômica mundial, ao demonstrar o pleno trunfo dos cartolas do futebol brasileiro, o que significaria a valorização do Real frente ao Euro e uma pontada de inveja no real Madrid.
Provavelmente a China se torne a nação mais poderosa do mundo, ou pelo menos a mais poluidora, o que seria uma tragédia, não pela emissão mortal de carbono, mas pela falta de escolas de mandarim no mundo. O Obama falaria e ninguém o ouviria, e como seu antecessor, usaria de métodos mais hostis e bombásticos pra suprir sua carência, e não seria no Iraque. Acho que a Carla Bruni posa nua novamente, já que a França sempre foi liberal e lá o presidente come muito bem.
Mas antes, muito antes de tentar qualquer incursão na língua Chinesa, ou uma viagem proveitosa nos ensaios eróticos em francês será preciso reconquistar aquilo que pensávamos que tínhamos pleno domínio: o português. As novas regras ortográficas vêm para destituir nossa soberania como nação e quem sabe nossa tirania como brasileiros. Nunca mais estaremos convictos de um acento, da irmandande de dois “erres” ou da procedência de um hífen; salvo a crase, que se mantém intacta como a corrupção em Brasília. É a obsolência da Era da Imprensa, de Guttemberg, já que tudo o que se imprimiu até hoje será anulado e precisará ser reeditado, causando calos e tendinite nos letrados, de uma forma geral e a final aceitação que desconhecemos nosso idioma e somos um país de analfabetos. Talvez a Igreja intervenha e queime os livros de uma língua lusitana retrograda e profana junto com as bruxas. Talvez queimem só as bruxas e as profanas.
Por precaução, em 2009, guardarei meus versos arcaicos de Bilac e as fotos ousadas da Primeira Dama sob a cama.
P.S.: O Ano de 2008 foi do Escorpião e do Escorpião somente. Tatuado na barriga e no coração.
O ano de 2009 é o penúltimo da década - o que me provoca tremuliços - e promete ser o penúltimo de muita gente. Estima-se que a fome e o Fome Zero, a Suzana Vieira e Santa Catarina não existam até o fim da década se as coisas continuarem nesse pé. Prevê-se também que a Dutra desapareça, já que São Paulo e Rio crescerão tanto, impulsionados pelos shows da Madonna que eles se dêem às mãos finalmente, como na pintura de Michelangelo. A desvantagem é que um tiro disparado em Ipanema pode implicar numa bala perdida, tanto na Lapa de lá ou quanto na Lapa de cá.
É bem possível que o Ronaldinho marque gols, dissolvendo a crise econômica mundial, ao demonstrar o pleno trunfo dos cartolas do futebol brasileiro, o que significaria a valorização do Real frente ao Euro e uma pontada de inveja no real Madrid.
Provavelmente a China se torne a nação mais poderosa do mundo, ou pelo menos a mais poluidora, o que seria uma tragédia, não pela emissão mortal de carbono, mas pela falta de escolas de mandarim no mundo. O Obama falaria e ninguém o ouviria, e como seu antecessor, usaria de métodos mais hostis e bombásticos pra suprir sua carência, e não seria no Iraque. Acho que a Carla Bruni posa nua novamente, já que a França sempre foi liberal e lá o presidente come muito bem.
Mas antes, muito antes de tentar qualquer incursão na língua Chinesa, ou uma viagem proveitosa nos ensaios eróticos em francês será preciso reconquistar aquilo que pensávamos que tínhamos pleno domínio: o português. As novas regras ortográficas vêm para destituir nossa soberania como nação e quem sabe nossa tirania como brasileiros. Nunca mais estaremos convictos de um acento, da irmandande de dois “erres” ou da procedência de um hífen; salvo a crase, que se mantém intacta como a corrupção em Brasília. É a obsolência da Era da Imprensa, de Guttemberg, já que tudo o que se imprimiu até hoje será anulado e precisará ser reeditado, causando calos e tendinite nos letrados, de uma forma geral e a final aceitação que desconhecemos nosso idioma e somos um país de analfabetos. Talvez a Igreja intervenha e queime os livros de uma língua lusitana retrograda e profana junto com as bruxas. Talvez queimem só as bruxas e as profanas.
Por precaução, em 2009, guardarei meus versos arcaicos de Bilac e as fotos ousadas da Primeira Dama sob a cama.
P.S.: O Ano de 2008 foi do Escorpião e do Escorpião somente. Tatuado na barriga e no coração.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Eu sou o Grinch!

Eu sou o Grinch e não ligo pro Natal. Todo esse estoque de comida, como se fossemos viver um ataque nuclear e a essa concentração de gente em volta de uma árvore me cansa seriemente. É o dia do ano em que menos como e bebo. Recluso-me em algum recinto sereno e calmo.
Evito até os shoppings, esses templos de concreto e consumo que ficam demasiadamente nocivos nesta época. Cheio de crianças em busca de presentes e adultos a procura de soluções.
É claro que adoro as decorações nas ruas, repletas de luzes piscantes e um pouco de cultura e contemplo satisfeito, sem pensar em quantos graus a terra vai aquecer com isso. Sem considerar quantas crianças passarão fome e quantos quilos de carne deixarei de comer. Gosto dos presentes e dos sorrisos, mesmo tendo de pagar por eles. Papai Noel já num me ilude mais, há muita compreensão em mim. E aqui nem neva, só esse sol que nos queima os miolos e essa chuva que a tudo aterra.
E de tudo o que mais odeio no natal é que ele precede a passagem de ano, é como se nossos corações se preparassem pro fim eminente. É a analogia do noivado na vida sentimental, que nos concede a chave que nos levará para um começo sem volta. O ano novo é um saco, só é aprazível e bem vindo se o ano velho for terrível e você não agüentar mais. É o chamamos vulgarmente de esperança.Mas o mais chato do natal são os embrulhos, sempre os embrulhos. Há bastante intenções de paz, amor, alegria e sinto-me nostálgico em certos momentos e acho que é o efeito do espírito natalino, mas o que estraga tudo são os embrulhos, há muitos deles no natal, definitivamente. Mas um pouquinho de amor ou solidariedade já justificam tudo, já um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
Evito até os shoppings, esses templos de concreto e consumo que ficam demasiadamente nocivos nesta época. Cheio de crianças em busca de presentes e adultos a procura de soluções.
É claro que adoro as decorações nas ruas, repletas de luzes piscantes e um pouco de cultura e contemplo satisfeito, sem pensar em quantos graus a terra vai aquecer com isso. Sem considerar quantas crianças passarão fome e quantos quilos de carne deixarei de comer. Gosto dos presentes e dos sorrisos, mesmo tendo de pagar por eles. Papai Noel já num me ilude mais, há muita compreensão em mim. E aqui nem neva, só esse sol que nos queima os miolos e essa chuva que a tudo aterra.
E de tudo o que mais odeio no natal é que ele precede a passagem de ano, é como se nossos corações se preparassem pro fim eminente. É a analogia do noivado na vida sentimental, que nos concede a chave que nos levará para um começo sem volta. O ano novo é um saco, só é aprazível e bem vindo se o ano velho for terrível e você não agüentar mais. É o chamamos vulgarmente de esperança.Mas o mais chato do natal são os embrulhos, sempre os embrulhos. Há bastante intenções de paz, amor, alegria e sinto-me nostálgico em certos momentos e acho que é o efeito do espírito natalino, mas o que estraga tudo são os embrulhos, há muitos deles no natal, definitivamente. Mas um pouquinho de amor ou solidariedade já justificam tudo, já um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
the life in technicolor

Hoje põe-se uma vela a mais no seu bolo technicolor.
Mesmo sabendo tão pouco a seu respeito, sei que minhas madrugadas nunca mais foram as mesmas, nem as manhãs tão pouco. Que a tristeza e a melancolia pudessem ser tão coloridas, e que a solidão pudesse ser tão cômica e confeitada, como uma película feita em technicolor pelos melhores cineastas.
Aprendi a delícia de manter uma vida em superlativos, finississimamente; bebendo na mesma proporção, colecionando histórias nos porres sucessivos.
Iludindo-se e desiludindo-se sempre, com amor virginal e intenções menos puras, que sempre começam nas segundas e terminam em alguma décima... sendo confundido com os mais loucos devassos...com os amantes mais profissionais ou com a vitima mais próxima...
Mas que se revelou graciosamente como um tio exemplar e um primo queridíssimo.
Mesmo sabendo tão pouco a seu respeito, sei que minhas madrugadas nunca mais foram as mesmas, nem as manhãs tão pouco. Que a tristeza e a melancolia pudessem ser tão coloridas, e que a solidão pudesse ser tão cômica e confeitada, como uma película feita em technicolor pelos melhores cineastas.
Aprendi a delícia de manter uma vida em superlativos, finississimamente; bebendo na mesma proporção, colecionando histórias nos porres sucessivos.
Iludindo-se e desiludindo-se sempre, com amor virginal e intenções menos puras, que sempre começam nas segundas e terminam em alguma décima... sendo confundido com os mais loucos devassos...com os amantes mais profissionais ou com a vitima mais próxima...
Mas que se revelou graciosamente como um tio exemplar e um primo queridíssimo.
para R.V.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
trouble slepping

É tarde e me sinto cansado e estou tendo problemas pra dormir. É essa constante necessidade entre respirar e pensar. Viro-me levemente pra esquerda pois me cansei de novo. Sinto o calor subindo pelos lençóis amarrotados e dispersos, chegando ao travesseiro que já foi ao chão. Está cada vez mais claro o escuro desse quarto, mais sonoros os mínimos ruídos na casa ao lado.
Surge uma TV na sala, um pouco de passos num piso de tacos da década de 50 e as baratas no chão e me incomodam muito. Não levantarei novamente pra tomar água, esvaziei a bexiga e não há nada para ler. Os braços descansados do relógio trabalham cada vez mais lentos, sinto-os girando nessa roda sem graça e infinita. O tempo não passa. Da mente vem um turbilhão de idéias que nunca cessa, misturando todos os assuntos com problemas com dilemas com memórias com sonhos que sonho acordado. Sinto o início de dor na lombar, é hora de virar-me novamente.
Lembro que esqueci de ligar o despertador. Levanto duvidando se é necessário. Recuso apelar para qualquer recurso medicinal, não tomo nada. Eu poderia estar insone por vários motivos, e deveria culpar muitas pessoas; só não diga, por favor, que estou me apaixonando.
Eu já vi esse filme. Vou desligar de novo. Está cedo agora. Alguns galos cantam no terreno baldio. A vizinha prepara o café e bate nos filhos; ele estão atrasados de novo. Meu jornal chegou e só lerei a resenhas dos filmes da semana.
Estou com o mundo sobre os olhos e sonolento; feliz porque ainda tenho um pouco de creme anti-olheiras.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Dona Cotinha

Dona Cotinha tinha por mania o hábito de contar anedotas. Um dos últimos relatos referia-se vagamente sobre o fato de o mundo se acabar. Jurara de que suas plantas emergiam alienígenas genocidas que haveriam de atacar a humanidade. Passado um mês de gritaria pelos corredores, descobriu-se que de suas violetas surgiam pulgões verdes e não aliens apocalípticos. Ainda ela dá vestígios de acreditar no Armageddon iminente, entretanto.
D.C., como foi apelidada; fazendo alusão ao caráter bélico-imperialista-catastrófico que havia em Washington (D.C) nunca tivera simpatia dos vizinhos. Certa feita afirmou que seu gato pardo, era preto. E que ele mantinha obscuras relações com a vizinha do 302. É claro que Abelardo, o marido do 302 não gostou nada da polêmica e das insinuações de pertencer a uma seita que sacrificava animais e outras formas de vida. As perjuras de Dona Cotinha contra a vizinhança tornaram-se insuportáveis. A filha do Cateto, do 210, ainda mostrava a língua e outras adjacências quando D.C. apontava no corredor.
Disseminou suspeitas ao homem de regata branca e peito depilado que visitava regularmente a moradora do 115. Nunca provaram nada. Nunca também conseguiram descobrir de onde vinha o terrível cheiro de nozes turcas que Dona Cotinha sentia sempre. O máximo que descobriram foi o cadáver do periquito amarelo que o caçula do 230 desovou havia meses. O dono do cantante pássaro, desvendado o crime tomou providências. Estilingues e armas de baixo calibre foram banidas do prédio. Seguindo-se a essa ela desenvolveu certa implicância com a barriga de Arnaldo, do 202. Além de excessivamente branca e peluda, seu abdômen possuía segundo D.C dizia: algo obsceno. Talvez fosse o recôndito do umbigo ou as dobrinhas logo acima da cintura. Terminou por expulsá-lo do condomínio.
Certo dia, convencida que de sua janela do banheiro entrava muita claridade, prejudicando o crescimento de suas violetas pulguentas, decidiu que deveria tapar o sol com a peneira. A idéia, quando foi apresentada a Rogerio Mateus, o porteiro, causou espanto e até comoção. A noticia logo se espalhou pelos interfones até o inquilino do 513 que nunca tinha sido visto, foi acionado. Muito burburinho agitou a semana e só comentavam aquilo. Todos previam algo terrível e totalmente prejudicial, de forma que foi decidido impedi-la.
Haveriam pelos métodos tradicionais ocidentais e depois pelos orientais persuadi-la a desistir da manobra de tapar o sol com a peneira. Muitas investidas e nenhum meio pacífico foi eficaz. Uns preferiram em assembléia partir para medidas mais eficientes, mas todos queriam agir na legalidade. Ficou decidido que ela deveria morrer de overdose de aspirinas. Não se reconheceu a voz que idealizou o plano – suspeita-se que foi o Abelardo, do 302 – mas logo foi sendo aceita sem protestos.
Na manha do dia que ela empunhou as telas para tapar misteriosamente suas janelas ela foi encontrada estirada, com olhos e boca abertas segurando um frasco vazio de aspirinas na mão. O sol forte entrava pelo velho e úmido banheiro doirando levemente o corpo desfalecido. Os legistas constataram que ela tomou no mínimo quarenta cápsulas de um analgésico comum. Consultados pela perícia sobre a morte suspeita de dona Cotinha, todos os vizinhos confirmaram: ela reclamava de fortes dores de cabeça; entrava muito sol pelas janelas, disseram.
Foi a última anedota de Dona Cotinha.
D.C., como foi apelidada; fazendo alusão ao caráter bélico-imperialista-catastrófico que havia em Washington (D.C) nunca tivera simpatia dos vizinhos. Certa feita afirmou que seu gato pardo, era preto. E que ele mantinha obscuras relações com a vizinha do 302. É claro que Abelardo, o marido do 302 não gostou nada da polêmica e das insinuações de pertencer a uma seita que sacrificava animais e outras formas de vida. As perjuras de Dona Cotinha contra a vizinhança tornaram-se insuportáveis. A filha do Cateto, do 210, ainda mostrava a língua e outras adjacências quando D.C. apontava no corredor.
Disseminou suspeitas ao homem de regata branca e peito depilado que visitava regularmente a moradora do 115. Nunca provaram nada. Nunca também conseguiram descobrir de onde vinha o terrível cheiro de nozes turcas que Dona Cotinha sentia sempre. O máximo que descobriram foi o cadáver do periquito amarelo que o caçula do 230 desovou havia meses. O dono do cantante pássaro, desvendado o crime tomou providências. Estilingues e armas de baixo calibre foram banidas do prédio. Seguindo-se a essa ela desenvolveu certa implicância com a barriga de Arnaldo, do 202. Além de excessivamente branca e peluda, seu abdômen possuía segundo D.C dizia: algo obsceno. Talvez fosse o recôndito do umbigo ou as dobrinhas logo acima da cintura. Terminou por expulsá-lo do condomínio.
Certo dia, convencida que de sua janela do banheiro entrava muita claridade, prejudicando o crescimento de suas violetas pulguentas, decidiu que deveria tapar o sol com a peneira. A idéia, quando foi apresentada a Rogerio Mateus, o porteiro, causou espanto e até comoção. A noticia logo se espalhou pelos interfones até o inquilino do 513 que nunca tinha sido visto, foi acionado. Muito burburinho agitou a semana e só comentavam aquilo. Todos previam algo terrível e totalmente prejudicial, de forma que foi decidido impedi-la.
Haveriam pelos métodos tradicionais ocidentais e depois pelos orientais persuadi-la a desistir da manobra de tapar o sol com a peneira. Muitas investidas e nenhum meio pacífico foi eficaz. Uns preferiram em assembléia partir para medidas mais eficientes, mas todos queriam agir na legalidade. Ficou decidido que ela deveria morrer de overdose de aspirinas. Não se reconheceu a voz que idealizou o plano – suspeita-se que foi o Abelardo, do 302 – mas logo foi sendo aceita sem protestos.
Na manha do dia que ela empunhou as telas para tapar misteriosamente suas janelas ela foi encontrada estirada, com olhos e boca abertas segurando um frasco vazio de aspirinas na mão. O sol forte entrava pelo velho e úmido banheiro doirando levemente o corpo desfalecido. Os legistas constataram que ela tomou no mínimo quarenta cápsulas de um analgésico comum. Consultados pela perícia sobre a morte suspeita de dona Cotinha, todos os vizinhos confirmaram: ela reclamava de fortes dores de cabeça; entrava muito sol pelas janelas, disseram.
Foi a última anedota de Dona Cotinha.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
M

From the moment the lights went off Everything had changed.Vi-me rodeado de uma centena de pessoas estranhas, histéricas, quando as luzes se acenderam. Havia tanta euforia e câmeras ligadas, soltando coloridos flashes como loucos vagalumes que apenas admirei e nada parecia ser o mesmo realmente. Um som forte de gritos femininos reverberou pelo salão lotado. Tão pequenos e demasiado simples eles cantaram “I was so high I did not recognize The fire burning in her eyes”. Mas ao longe e no fundo eu ouvi o fogo ardendo em seus olhos. É estranho – e até mesmo bom - gostar de alguém que não se conhece, não se vê. Cada dia alimentando um sentimento por alguém que se conhece só a voz. Ver ao vivo é melhor ainda, eu creio. I know I don't know you But I want you so bad Everyone has a secret Oh can they keep it? Oh No they can't.
Não, não vou mantê-los, e eu não te conheço. O show foi excelente, fui cantando cada verso com veracidade, sabendo que vivi cada letra nesse ano que já vai longo. Curto foi o musical. E tão intenso que nem tive tempo de me apaixonar naquela noite, nem rouco fiquei.
And we're only several miles from the sun, e estava tão quente, eu derretia como um picolé fora de casa. Entretando cada vez mais feliz por estar ali. Afinal nothing lasts forever, but be honest, babe It hurts, but it may be the only way. Era o único caminho que eu conhecia: uma voz fininha, um corpo magrinho nos guiando, nos embalando até um coração mais tranqüilo, às vezes perverso, mas sempre tranqüilo.
Minha preferida é Sunday Morning, uma das eternas. Começou tímida com o piano e logo cantei também: é domingo de manhã, a chuva caindo. Roubo algumas cobertas e divido peles, as nuvens nos envolvendo em momentos inesquecivéis... É tão fundamental, talvez seja tudo o que eu precise, eu via tanta coisa no escuro, convidando alguns ossos quebrados, umas costelas pra descansar em mim. E eu cantando cada vez mais devagar, não querendo nunca que acabasse. E eu juro, no final, havia uma flor em seu cabelo, mesmo sabendo que eu teria de ir pra casa sem você.
E assim, como começou, logo veio o fim. Mas eu não havia terminado ainda. Acho que nunca vai acabar; esse show, essa canção, essa lembrança. And with a tear in my eye Give me the sweetest goodbye That I ever did receive.
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